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Risk Consulting

Sob o impacto da IFRS 16

Nesta entrevista, o sócio Lúcio Anacleto comenta os desafios de implementação da norma e os setores mais impactados.

28 de fevereiro de 2019

A norma IFRS 16 - Arrendamento Mercantil, em vigor desde janeiro, foi publicada há dois anos pelo International Accounting Standard Board (IASB), mas ainda representa um desafio para as empresas. De acordo com Lúcio Anacleto, sócio-líder da prática de Accounting e Financial Risk, sua implementação tem exigido amplo trabalho e análise dos impactos.

A norma elimina o conceito de arrendamentos operacionais e financeiros para arrendatários, já existente na IAS 17, substituindo-o por um único modelo contábil. O sócio explica que, dessa forma, os arrendatários devem reconhecer todos os contratos que se classificam no conceito de arrendamentos no balanço como um “ativo de direito de uso” e tendo como contrapartida um “passivo de arrendamento”.

"Quanto maior a carteira de arrendamentos, maior o impacto sobre as principais métricas financeiras. Dentre os setores mais impactados estão, especialmente, aviação, financeiro e varejistas", afirma o sócio.

Além de reflexo contábil, as companhias sofrerão impactos em processos e controles internos. Dependendo do portfólio de arrendamento, será necessária a adoção de soluções sistêmicas, além de revisão de suas políticas contábeis e também de seus reportes contábeis, financeiros e gerenciais.

Para uma análise sobre os maiores desafios que as empresas continuarão enfrentando para implementar a norma, a KPMG realizou o estudo Global Lease Accounting Survey  Na entrevista a seguir, Lúcio Anacleto fala mais sobre a pesquisa, as mudanças da norma e procedimentos para adequação às novas regras.

Lúcio Anacleto
Sócio de Accounting & Financial Risk

Quais são as principais mudanças da norma?

Até antes da adoção da IFRS 16, as companhias eram requeridas a divulgar detalhes de seus arrendamentos que estão fora do balanço nas notas explicativas e, em geral, analistas utilizavam essa informação para ajustar as demonstrações financeiras publicadas. A principal mudança será o aumento na transparência e na comparabilidade. Pela primeira vez, os analistas poderão visualizar a avaliação das companhias a respeito das suas obrigações de arrendamento, calculada por meio de uma metodologia definida que terá que ser seguida por todas as companhias que preparam e divulgam informações de acordo com a IFRS.

E com relação à contabilização ao longo da vida do arrendamento?

Como consequência das despesas financeiras calculadas sobre o passivo, as companhias registrarão despesas maiores no início do prazo do arrendamento para a maioria dos contratos, mesmo quando os pagamentos são constantes. Adicionalmente, a norma introduz uma linha divisória clara entre os arrendamentos e os contratos de prestação de serviços – os contratos de arrendamento serão trazidos para dentro do balanço patrimonial, enquanto os contratos de serviços permanecerão fora do balanço patrimonial.
 

A norma já está em vigor. Quais os desafios para as empresas?

As companhias precisarão coletar dados significativos sobre os seus arrendamentos e realizar novos cálculos e estimativas. A aplicação dos novos requerimentos resulta em esforço adicional às companhias. Para algumas empresas, o principal desafio será a coleta dos dados requeridos. Para outras empresas, irão predominar questões que demandam maior julgamento, como, por exemplo, a identificação de quais transações contêm arrendamentos.

O que os resultados da pesquisa apontam?

De uma maneira geral, as empresas que não concluíram a implementação até a data de entrada em vigor das normas terão de depender de soluções provisórias, enquanto aquelas que usufruem uma pequena parte remanescente do período de carência ainda estão em uma corrida contra o tempo (veja box).

Que medidas as empresas que não iniciaram as adaptações às normas ou não se adequaram totalmente podem tomar?

As empresas que ainda não começaram nenhum trabalho para o processo de adoção da IFRS 16 deverão, primeiramente, identificar e mapear seu portfólio de contratos e realizar uma análise desses contratos para verificar se atendem à definição de arrendamento requerida pela norma. Também deverão avaliar a necessidade de utilização de soluções sistêmicas, a revisão de processos e controles internos e a definição de novas políticas contábeis para o tema, já que a nova norma exigirá o uso de julgamento e estimativa para a discussão de temas como taxa de desconto e prazo do contrato. Por fim, existe ainda a necessidade de mensuração dos impactos contábeis do normativo para posterior reconhecimento nas demonstrações financeiras. Todos esses procedimentos referem-se às tratativas para a adoção inicial. Entretanto, as entidades precisarão repensar e avaliar os impactos em seu dia a dia para atender aos requerimentos de mensuração subsequente da norma e também ajustar tais requerimentos/demandas à rotina de seu negócio.

Principais considerações da pesquisa

- Embora menos da metade (44%) tenha concluído um inventário de suas operações de arrendamento mercantil, somente um quarto finalizou uma avaliação contábil.
- Apesar de aproximadamente metade (45%) ter selecionado seu software de contabilização de arrendamentos mercantis, somente 16% desenvolveram os requisitos do sistema, e apenas 13% elaboraram soluções de software.
- 83% das empresas ainda não concluíram a etapa de coleta e validação dos dados.
- De modo geral, somente 3% das empresas concluíram seus projetos de compliance de contabilização de arrendamentos. Da parte remanescente, mais de dois terços (67%) indicaram que não estavam no caminho certo devido a desafios que estavam enfrentando.

Pontos de atenção para as empresas que adotarão a IFRS 16

-Identificar todos os contratos de arrendamento e coletar dados.
- As principais métricas financeiras serão afetadas pelo reconhecimento de novos ativos e passivos.
- A norma introduz novas estimativas e limiares de julgamento que afetam a identificação, a classificação e a mensuração de operações de arrendamento.
- A nova norma introduz volatilidade dos ativos e passivos para os arrendatários.
- Algumas empresas podem querer reconsiderar certas cláusulas contratuais e práticas comerciais.
- Para capturar os dados necessários para cumprir os novos requisitos, podem ser necessários novos sistemas e mudanças de processos.
- Alguns impactos podem ainda não ser quantificados até que outros órgãos contábeis e regulatórios tenham dado respostas.
- A escolha do método de transição e dos expedientes práticos pode impactar o custo de implementação e a comparabilidade dos dados nos anos após a transição.
- A comunicação com as partes interessadas deverá ser cuidadosamente analisada.

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