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Revista

KPMG Business Magazine 44

Prontos para construir o futuro

31 de dezembro de 2021

É verdade que a economia brasileira está se recuperando em ritmo lento, que nós avançamos pouco com as reformas imprescindíveis ao País (especialmente nos campos tributário, trabalhista e previdenciário) e que a burocracia ainda atrapalha bastante a vida de quem quer empreender, gerar renda e empregar pessoas. Nada disso, porém, é capaz de tirar o otimismo dos executivos brasileiros.

Foi isso mesmo que vocé leu: apesar de todos os obstáculos, nossos gestores permanecem confiantes. Pelo menos, foi esse o estado de ânimo revelado por 53 executivos brasileiros entrevistados para a elaboração da pesquisa CEO Global Outlook 2018.

Realizado anualmente pela KPMG, esse estudo tem como objetivo compreender o pensamento empresarial ao redor do mundo. Em sua edição mais recente, ele se baseia nas opiniões e informações prestadas por 1.631 CE05, de 19 países e atuantes em 11 segmentos: gestão de ativos (asset management), indústria automotiva, bancário, consumo e varejo, energia, infraestrutura, seguros, saúde, indústria de transformação, tecnologia e telecomunicações. O grupo denominado Core Countries abrange os 11 principais mercados em que a KPMG atua: Austrália, China, França, Alemanha, índia, Itália, Japão, Países Baixos, Espanha, Reino Unido e EUA; e nos 11 principais setores da indústria. Os outros oito países que participaram do levantamento são considerados emergentes. Vale ressaltar que um terço das empresas pesquisadas tem mais de US$ 10 bilhões em receita anual.

A metodologia empregada na elaboração do estudo CEO Global Outlook 2018 permite traçar um retrato fiel das principais preocupações, prioridades e expectativas dos executivos que atuam em escala mundial, regional ou local, em relação ao crescimento dos negócios, aos desafios que esperam enfrentar e às estratégias que pretendem adotar.

É curioso perceber que o otimismo não foi manifestado apenas pelos brasileiros: em geral, esse sentimento permeia as ações e estratégias dos executivos de todos os países consultados. Mas é um otimismo cuidadoso, sem exageros: 55% dos entrevistados disseram esperar um "crescimento cauteloso da receita de seus próprios negócios°, e 52% afirmaram que só farão novas contratações depois de atingirem suas próprias metas de crescimento.

Quando cruzamos os dados do atual estudo com os resultados publicados em 2017, percebemos que os executivos passaram a dar mais peso aos campos de capacitação pessoal, aos investimentos em novas tecnologias, à adoção de ferramentas de gestão e à mecânica de definição de estratégias pontuais - ou seja, em vez de observarem o futuro com receio, os CEO5 estão optando por criar caminhos, soluções e saídas para os impasses que vierem a se apresentar. Tendo em vista que estamos em um cenário de mudanças demográficas significativas, alta volatilidade geopolítica e riscos cibernéticos, podemos inferir que a tendência mundial dos executivos é aproveitar as adversidades para direcionar suas organizações para o crescimento.

Entre os brasileiros, que aos poucos saem de um quadro recessivo, a confiança na economia mundial é compartilhada por 53%. Ainda uma maioria, mas bem menor que os 96% apresentados em 2017. Ainda assim, o ânimo verde e amarelo é o melhor da América Latina, onde só 28% dos CEOs apostam num cenário positivo para a economia global. Em compensação, quando perguntados sobre as perspectivas de crescimento de suas empresas para o próximo triênio, 100% dos brasileiros mostraram-se otimistas, contra 96% em 2017. No grupo dos latinos, 95% estão igualmente otimistas; no grupo de Core Countries, o índice é de 90%. E, quando questionados sobre o "tamanho° da expansão esperada, 87% dos brasileiros apostam num crescimento médio das receitas de 2% ao ano, mesma projeção de 84% dos latinos e de 55% dos executivos dos Core Countries; para 8% dos brasileiros, esse avanço poderá ser ainda maior: entre 2 e 4%; finalmente, 4% de brasileiros bem mais otimistas apostam que poderão expandir suas receitas de 5% a 9%.

Claro que os CEOs brasileiros que esperam alcançar esses bons resultados não estão contando com a sorte, nem com alguma ajuda externa. Em vez disso, eles apostam em alianças estratégicas (mencionadas por 32%), na concretização de fusões e aquisições (21 %) e nas joint ventures (19%1. O crescimento orgânico, fundamentado em investimento em inovação, pesquisa e desenvolvimento, injeção de capital e recrutamento, é a aposta de 17% dos entrevistados, enquanto 11% pretendem fazer da terceirização uma aliada.

Vale chamar atenção para um dado curioso: contrariando muito do que se diz a respeita da importância da sustentabilidade para os negócios, 63% dos entrevistados disseram que a estratégia de crescimento de suas companhias não estarão atreladas a um objetivo social mais amplo. E aqueles que vão investir no mercado externo estão atentos aos países vizinhos: 89% pretendem priorizar as negociações com economias emergentes das Américas do Sul e Central, e somente 9% estão dispostos a colocar foco dos mercados desenvolvidas. Entre os Core Countries, a aposta nos mercados emergentes foi citada por 70% dos entrevistados.

É interessante notar a relevância da tecnologia nos planejamentos estratégicos: 84% dos CEOs brasileiros afirmaram que seus investimentos em tecnologia têm caráter estratégico, e 42% declararam que os investimentos em processos de detecção de in-ovação e disrupção são partes importantes de suas estratégias de negócios; além disso, 40% mostraram-se dispostos a investir em programas de aceleração ou incubadoras de startups, e 38% disseram-se propensos a disponibilizar produtos e serviços por meia de um provedor de plataforma online, mesmo percentual daqueles que pretendem firmar parcerias com provedores terceirizados de tecnologia de nuvem. Para 34%, será importante integrar-se aos consórcios da indústria com foco no desenvolvimento de tecnologias inovadoras, e 32% esperam atuar em parceria com provedores de dados terceirizados. E mais: 55% dos CEOs revelaram que a implementação de inteligência artificial em alguns processos específicos já é uma realidade em suas empresas, ainda que em pequena escala.

André Coutinho e Charles Krieck

A segurança cibernética foi citada como o fator que "mais preocupa" os executivos brasileiros, e 91% disseram que proteger os dados dos clientes é "prioritário': Ainda assim, 75% dos brasileiros garantiram estar 'muito bem" ou 'bem" preparados para deter uma ocorrendo de ameaça á segurança cibernética, um dado que pode ser considerado surpreendente. Essa confiança foi manifestada por 84% dos latinos e apenas 57% dos executivos atuantes nos Core Countries.

Outra preocupação que despontou como relevante entre os brasileiros foi o temor de não acompanhar, ou não lidar adequadamente, com as tecnologias disruptivas/emergentes 125%1. Os demais receios, como o de não superar problemas operacionais, a dificuldade em reter talentos e até as altas taxas de juros praticadas no País, ficaram abaixo de 10%.

Ao comentarem sobre a eficácia e desenvolvimento da força de trabalho em suas empresas, 79% citaram que o conhecimento sobre tecnologias emergentes é uma habilidade altamente desejável, enquanto 70% mencionaram a capacidade de traçar cenários e riscos, 64% mostraram valorizar os conhecimentos sobre segurança cibernética e 60% apontaram como desejável a especialização em sus-tentabilidade. Ainda no âmbito da força de trabalho, 85% dos executivos brasileiros afirmaram crer que suas empresas precisarão aumentar em até 5% o número de colaboradores pelo próximo triênio, e apenas 2% disseram esperar que suas equipes sejam reduzidas. O aumento de 5% na mão de obra foi prevista também por 86% dos entrevistados latino-americanos e por 54% dos integrantes dos Core Countries.

A projeção de aumento de mão de obra alinha-se a uma outra conclusão trazida pelo Estudo: na opinião dos executivos, o uso de novos recursos tecnológicos, tais como a robótica e a inteligência artificial, acabarão dando origem a novos postos de trabalho em vez de eliminá-los. Nada menos que 95% dos CEOs ouvidos globalmente têm essa visão otimista - entre os brasileiros, esse índice chega a 100%.

Questionados sobre a eventual necessidade de trans-formar radicalmente seus modelos de negócios para fazer-em frente aos novos desafios e não perderem competitividade, 89% dos entrevistados brasileiros afirmaram estar pessoalmente preparados para liderar suas organizações nesse caminho. Essa autoconfiança foi demonstrada por 91% dos CEOs latino-americanos, e por 72% dos Core Countries. Além disso, 87% dos executivos brasileiros, 89% dos latino-americanos e somente 27% dos demais países asseguraram não sentir qualquer dificuldade para acompanhar o ritmo da inovação tecnológica em seus respectivos setores.

O empreendedor nacional é incansável, está disposto a abraçar as melhores práticas mundiais e não perde a confiança do pais.

Ainda dentre os brasileiros, 76% dos executivos disseram acreditar que a análise preditiva não deve ser considerada menos precisa que a analise de dados históricos de operações, e 22% garantiram que pretendem aumentar o uso de modelos de previsão ou análise pelos próximos três.

O recorte brasileiro do estudo CEO Global Outlook 2018 confirma aquilo que, de certa forma, todos nós sabemos: o empreendedor nacional é incansável, está disposto a abraçar as melhores praticas mundiais e não perde a confiança no Pais. Com o otimismo, a disposição e a energia que manifestaram durante o estudo, nossos executivos demonstram claramente que estão preparados para ajudar o Brasil a emergir da crise e a assumir o lugar que merece no cenário mundial.

Andre Coutinho (Sócio membro do Comitê Executivo responsável pela área de Mercados na KPMG no Brasil.)

<p>Com 24 anos de experi&ecirc;ncia,&nbsp;atua em estrat&eacute;gia de&nbsp;desenvolvimento de mercado setorial e regional, programa de&nbsp;contas&nbsp;e atividades de marketing.</p>